sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A indústria da tragédia

Ontem quando acordei, liguei a tv e me deparei com as fortes cenas da tragédia ocorrida nos últimos dias no Rio de Janeiro, talvez nem fosse pra eu me assustar porque essas notícias tem se tornado uma coisa corriqueira nos meio de comunicação, mas me senti na pele de cada uma daquelas pessoas e sofri junto delas.
No mês passado postei um artigo neste blog com o título “Eu Quis Dizer Você Não Quis Escutar,” onde tentei chamar a atenção para as catástrofes naturais e os problemas ambientais pelos quais o planeta vem passando. Infelizmente vejo o que escrevi como o roteiro de um filme num cenário desolador.
“Sabemos que eventos naturais, como diz a própria palavra, são naturais, porém, na proporção e intensidade que eles estão acontecendo, fica bem claro que a ação do homem tem sidodeterminante nesse processo”.
Mas quem são os responsáveis por essa indústria que vem gerando tantas tragédias? O que está acontecendo com nosso planeta? Estas perguntas vêma todo o momento a nossa cabeça como forma de buscar uma justificativa para tantos desastres. Só ainda não caímos na real que somos os operários dessa indústria, e todas as coisas que fazemos estão se revertendo contra nós no processo de ação e reação.
Já é passada a hora de parar de achar que isso é “problema dos outros” e não acontece com a gente, se estamos no mesmo barco, mais cedo ou mais tarde estamos sujeitos a ir juntos. Não adianta transferir o problema para os nossos filhos, remediar agora e encaminhar para o futuro, nossos filhos não merecem essa herança maldita resultado de nossas inconsequências. Temos nossa parcela de culpa, por isso, como forma de nos redimir criamos esse sentimento de solidariedade e compaixão com nossos irmãos atingidos pelas catástrofes.
Sei que irei continuar a dizer e ninguém vai querer escutar, talvez quando alguém queira escutar já seja tarde demais.

Sabedoria e respeito ao ambiente: A lição de vida de seu Manel dos caranguejos

Manuel Bezerra Filho, 89 anos 2 meses e 6 dias (entrevista realizada em 11/01/11) como faz questão de lucidamente enfatizar, é mais conhecido popularmente como seu Manel dos caranguejos, apelido recebido pela profissão de catador de caranguejo que exerce a 55 anos, e que através dela sustentou 37 filhos dos vários casamentos. Mesmo com o peso da idade, seu Manel caminha uma média de 6km diários de ida e volta ao manguezal, enfrenta as marés, o solo lamacento e trabalha diariamente catando caranguejos. Ele é um profundo conhecedor do ecossistema manguezal e do responsável pelo sustento de sua família, o Ucides cordatus nome dado pela ciência a quem ele tem maior intimidade e chama simplesmente de caranguejo. Seu Manel conta que chegou aqui há 42 anos e nessa época retirava ate 25 “cordas de caranguejo” do mangue (uma corda tem 12 caranguejos) quase diariamente quando tinha encomenda, e isso garantia o sustento da família, porém, ele lembra que nunca utilizou nenhuma armadilha para capturar caranguejo, sempre retirou carangueio enfiando o braço na lama, não pega os pequenos e nem as fêmeas ovadas.
Com toda sabedoria e o aprendizado na universidade da vida, seu Manel conta que o caranguejo é um bicho de sombra, que ele só procura as partes mais altas para descascar, segundo ele, na mudança de casca o carangueijo passa 90 dias no buraco num processo de hibernação enquanto o casco estiver mole, ele conta que, para passar por esse processo o caranguejo enche o buraco de comida para garantir sua sobrevivência durante o período de troca do casco e caso falte comida quando ainda o casco estiver mole, ele como os restos do casco antigo.
Conhecedor da importância do ecossistema manguezal seu Manel fala com revolta da destruição do ecossistema que por todos esses anos garantiu sua sobrevivência e de sua família. “Não se pode judiar do mangue, eu tenho raiva de quem judeia do mangue” comenta seu Menel,  segundo ele mais de 300 hectares de mangue foram destruídos em Icapuí, grande parte pelas salinas ao cortarem a  vegetação para a construção dos “baldes de sal” e através do lançamento de águas “graduadas” (hipersalinas) no ecossistema ocasionando a morte das espécies vegetais e animais ali existentes. Ele ainda comenta que as fazendas de camarão também tem sua parcela de responsabilidade na destruição do manguezal.
O resultado da degradação do manguezal, seu Manel sente hoje claramente, ele comenta que vai ao mangue e tira apenas uma “corda de caranguejo” por dia (12 caranguejos), “isso acontece porque acabaram com o mangue”, relata seu Manel.
Como base da cadeia reprodutiva da zona costeira, os manguezais são ecossistemas de extrema importância para a sobrevivência das espécies da fauna, manutenção da biodiversidade e sustento das populações tradicionais, por isso, sua preservação é a garantia do equilíbrio de todos os sistemas costeiros.